Mulheres dividindo mercado de trabalho com os homens

O aprofundamento dos decotes levou-a a aderir à
depilação. O espartilho, graças ao trabalho feminino nas fábricas, diminuiu e se transformou em sutiã
para possibilitar maior movimentação dos braços. “Manter a linha” tornou-se um culto. A magreza ativa
foi a resposta do século XX à gordura passiva da belle époque. O jeans colado e a minissaia sucederam,
nos anos 1960, o erotismo da mão na luva e das saias no meio dos tornozelos característicos dos anos
1920. Com o desaparecimento da luva, essa capa sensual que funcionava ao mesmo tempo como freio e
estímulo do desejo, surgiu o esmalte de unhas. No decorrer do século XX a mulher se despiu. O nu, na
mídia, nas televisões, nas revistas e nas praias, incentivou o corpo a desvelar-se em público,
banalizando-se sexualmente.

A solução foi cobri-lo de cremes, vitaminas, silicones e colágenos. A pele
tonificada, alisada, limpa, apresenta-se idealmente como uma nova forma de vestimenta, que não enruga
nem “amassa” jamais. Uma estética esportiva voltada ao culto do corpo, fonte inesgotável de ansiedade e
frustração, levou a melhor sobre a sensualidade imaginária e simbólica. Diferentemente de nossas avós,
não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição
social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. “Liberar-se” tornou-se
sinônimo de lutar por SENAC cursos grátis 2019, centímetro por centímetro, contra a decrepitude fatal e, agora, culpada, pois o prestígio
exagerado da juventude tornou a velhice vergonhosa.
O corpo feminino passou também por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. A
pílula anticoncepcional permitiu-lhe fazer do sexo não mais uma questão moral, mas de bem-estar e
prazer. A mulher tornou-se, assim, mais exigente em relação ao seu parceiro, vivendo uma sexualidade
mais ativa e prolongada. Entre os sexos surgiram normas e práticas mais igualitárias. A corrente de
igualdade não varreu, contudo, a dissimetria profunda entre homens e mulheres na atividade sexual.
Quando da realização do ato físico, desejo e excitação física continuam percebidos como domínio e
espaço de responsabilidade masculina.

O casal raramente reconhece a existência e a autonomia do desejo
feminino, obrigando-o a esconder-se atrás da capa da afetividade. A famosa “pílula azul”, o Viagra, só
veio a reforçar o primado do desejo masculino, explicitando uma visão física e mecanicista do ato
sexual, reduzido ao bom funcionamento de um único órgão. Revanche masculina contra o “domínio de si”
que a pílula anticoncepcional deu à mulher?
O espaço privado no qual tais mudanças se impuseram também mudou. A brasileira saiu do
campo e veio para a cidade. Teve de mudar o corpo e alma. Em meio à solidão da grande cidade, ao
trânsito, à corrida contra o relógio, aprendeu a sonhar com cursos técnico Senac, com o
fantasma da interação transparente e fusional. Leu preferencialmente romances e livros de autoajuda,
sempre à espera de um príncipe encantado, os sentimentos intensos demais provocam horrível embaraço,
e que as lágrimas e a dor devem se submeter a implacável discrição afetiva; a um tal de “self control”.
Sob o choque da modernidade capitalista, ela viu igualmente a família se modificar. A crescente
dissolução de casamentos que duram cada vez menos, o aumento de divórcios que não impedem ninguém
de recomeçar constituíram-se em novo cenário para as relações afetivas. É o fim de um mundo
constituído por vastas parentelas, famílias enormes, sobrinhos e afilhados reunidos nos domingos para o
almoço; onde residem tensões mas também, e sobretudo, solidariedades.

Desafio da prova do Enem a ser superado

Segundo pesquisas recentes, a maioria das brasileiras quer realizar-se por meio do trabalho.
Para elas, nosso tempo é aquele de novos desafios. Como vencê-los, se o mundo profissional parece-nos
uma verdadeira “guerra dos sexos”? Penso que no Brasil as mulheres estão mais preocupadas em
questionar e interrogar sua identidade do que em opor-se aos homens. Para nós é mais importante
estruturar o futuro, nossa relação com a família e o trabalho do que polarizar debates com companheiros,
pais e irmãos. Não creio que jamais ouviremos aqui piadas do tipo “as mulheres não são homens como os
outros”! Aqui, a guerra dos sexos nunca teve a amplitude que adquiriu nos Estados Unidos. Como em
muitos outros países latinos, as brasileiras, descontadas algumas feministas radicais, sempre se
recusaram em ver no homem um inimigo hereditário. Do nosso convívio amigável, nasceu uma pergunta:
Como viver e trabalhar junto preservando nossa identidade e conservando nossa autonomia para o novo Enem 2020.

A mulher brasileira trabalha há centenas de anos. Nos primórdios da colonização, elas foram
fazendeiras, comerciantes, lavadeiras, escravas. Nas primeiras décadas do século XX, grande parte do
proletariado era constituído por mulheres. Espanholas, italianas, polonesas e sírias constituíam 67,62%
da mão de obra. As mulheres negras, após a abolição, continuaram, por sua vez, trabalhando nos setores
mais desqualificados e recebendo salários baixíssimos. Nos anos 1970, a integração de mulheres em
grupos comunitários resultou na participação em comissões jurídicas e políticas que passaram a atuar
para ampliar e melhorar suas condições de vida nas grandes cidades. Elas participaram também do
processo de elaboração da Constituição de 1988, quando vários direitos relativos à vida e ao trabalho
feminino foram definidos e melhorados.

Apesar de subsistirem problemas (segregação ocupacional por preconceito racial, disparidades
salariais e menor participação feminina nas associações de categorias profissionais, entre outras) as
mulheres vêm obtendo progressivamente uma igualdade de reconhecimento, se não de direitos com os
homens. A conquista da autonomia profissional com a mudanças do enem 2020, a evolução dos modelos familiares e o controle da
procriação transformaram sua imagem e situação social. A presença feminina afirmou-se notadamente no
mundo do trabalho e, desde os anos 1980, o crescimento da população ativa deve muito às mulheres; tudo
indica que essa progressão se conserva apesar do desemprego. Estudos demonstram, contudo, a
persistência de profundas desigualdades entre os dois sexos: desigualdade econômica, política ou de
acesso aos postos de poder. Dentro dos casais, a partilha de tarefas ainda é uma doce utopia; as mulheres
consagram-se três vezes mais que seus companheiros às atividades domésticas. Ainda temos muito por
conquistar.
Contudo, a temática das desigualdades me parece estar relegada ao segundo plano, em
benefício da temática das identidades. A construção de si e o desenvolvimento pessoal são uma
prioridade para todos os indivíduos neste início de século XXI. A questão maior para as brasileiras tem
sido a de recusar as identidades importadas, preferindo investir na sua própria diferença. O padrão da
supermulher dos anos 1980, tipo “executiva americana de Wall Street”, calcado sobre um modelo
masculino competitivo e de forte investimento profissional, não nos serve. A novidade dos anos mais
recentes é que, na construção de suas identidades, cada vez mais as mulheres utilizam novas lógicas em
função de suas motivações, de suas sensibilidades e de seus valores. Mais do que identificar-se aos
valores masculinos, elas afirmam suas diferenças. Qualidades ditas “femininas” emergiram e são cada
vez mais valorizadas. A negociação, a mediação, como modo de resolução dos conflitos, são preferíveis
ao autoritarismo, até nas práticas de certos dirigentes políticos.

Vivendo indiferente a modernidade do seculo 21

O que há de comum entre os problemas que preocupam Pedro e Paulo — roubalheira na
Câmara de Vereadores, malufismo, bandas podres, o mar de lama na vida pública — e a história da
corrupção que preocupa sua mãe, uma historiadora? Estamos todos na esquina entre o ordinário e o
extremo. Moramos no Brasil. Assistimos juntos a débâcle ética. As razões? No país — é a mídia falada
ou escrita que bate insistentemente na mesma tecla — Estado e Sociedade estão divorciados. A distância
entre Brasília e o Brasil é tão gigantesca que a capital passou a ser conhecida como “a ilha da fantasia”.
Numerosos intelectuais sublinham essa característica. O antropólogo Roberto Da Matta refere-se a um
“Estado que tem razões que a Sociedade — sempre atrasada, malformada, viciada, não preparada ou
ignorante — ignora. O governo anuncia novo salario minimo 2020, por seu turno, sempre remete aos seus parcos recursos e ao seu pessoal
não especializado ou qualificado.” E, ironiza Da Matta, “espremida entre esses modelos existenciais e
gerenciais, a sociedade fica tão invisível como a mortadela de um sanduíche barato”.

O jornalista Oliveiros Ferreira definiu-os como sujeitos que se opõem. Críticas novas? Não. Em 1877, o escritor
Tobias Barreto já comparava os brasileiros, povo e autoridades, a viajantes que se reuniam à noite numa
casa de rancho, mas que ao amanhecer seguiam caminhos distintos, impassíveis diante dos tormentos
alheios. Manoel Bonfim denunciou a vida parasitária da qual participavam órgãos e classes sociais na
forma de agentes da administração e dos monopólios. Há mais de 50 anos, o jurista Raimundo Faoro
escreveu um clássico sobre como o país foi sempre governado por uma comunidade de burocratas
capazes de usar um cipoal de leis para encobrir sua própria incompetência. A lista, enfim, dos que
apontaram os desdobramentos dessa separação é longa. O que vale destacar aqui é uma história de
divórcio entre Estado e Sociedade, gerando uma estrutura feita de clientelismo e corrupção que
atravessou, quase intocada, 500 anos de história.
Comecemos do começo: nos primeiros anos da colonização, as ligações pessoais e os laços
familiares entre senhores de engenhos de açúcar e funcionários do governo português favoreciam o mau
funcionamento da máquina administrativa. Quando petições e pedidos de auxílio financeiro esbarravam
na inércia político-administrativa metropolitana, tentava-se conseguir, pela corrupção, influenciar ou não
a aplicação de determinadas leis na Colônia. Os que tinham magistrados na família podiam suborná-los
ou fraudar normas, contando com seu silêncio. O Tribunal da Relação do Brasil, criado em 1609,
rapidamente notabilizou-se como uma instituição corrupta.

Numa aparente, apenas aparente, contradição,
os colonizados pulavam em sua defesa cada vez que a Coroa agia contra os juízes explicitamente venais.
Esse coito infernal era bom para ambos os lados. A Justiça que submetia os moradores da América
portuguesa era rapace. A voracidade de meirinhos, escrivães e juízes, insaciável. Exatamente como a que
revelou, 500 anos depois, o juiz Nicolau! Enganavam-se, com o maior descaramento, as partes litigantes.
Certos magistrados alegavam mesmo que seus emolumentos tinham de ser pagos pelas partes, abrindo as
portas para as maiores extorsões. O costume, então dominante, de arrendamento de cargos públicos e aposentadorias que esperam aumento do salario minimo 2020,
favorecia a roubalheira. Nada mais imediatista do que a relação dos funcionários públicos com o Brasil.
Muitos deles removidos da Corte por causa de dificuldades financeiras, dirigiam-se à colônia para
resolver tal problema no tempo mais curto possível. Manter-lhes “as mãos ocupadas” ou “as rodas
azeitadas” foram expressões correntes no século XVIII para definir não sua preocupação com a coisa
pública, mas com seu próprio bem. Bem, ou melhor “bens”, amealhados à custa do interesse coletivo. Um
exemplo concreto? A relação estreita entre bandidos que infestavam o distrito da Mantiqueira, na
comarca do Rio das Mortes, no final do século XVIII e as autoridades locais. Vestidos com as fardas dos
integrantes das chamadas Patrulhas do Mato, facínoras que respondiam pelo nome de Mão de Luva ou
Montanha, assaltavam e matavam contrabandistas de ouro, crimes com os quais as autoridades não
pareciam se importar. Mais. Os comandantes temiam prendê-los, pois deixados em cadeias precaríssimas
logo fugiam jurando vingança. Integravam tais grupos alferes, cabos e soldados mostrando bem a que
ponto os limites entre a lei e o crime estavam embaralhados. Não é à toa que um dos mais importantes
libelos seiscentistas contra a corrupção, o famoso A arte de furtar, anunciava que entre os funcionários os
maiores ladrões eram aqueles que tinham por ofício livrar o povo… dos ladrões! Coisas do “tempo do
Onça”? Não.
No final do século XIX, auge da obsessão higienista das autoridades nas grandes cidades como
São Paulo, então comparada a Manchester, os membros da Força Pública comprometida com o combate à
vadiagem e à perseguição a cafetões, jogadores, passadores de moeda falsa ou de “contos do vigário”
eram sistematicamente denunciados pela imprensa por alcoolismo e associação com o jogo do bicho.
Procurava-se tirar o máximo proveio da posição de “autoridade policial”. A extorsão era uma forma
costumeira de complementação salarial. A “banda podre”, leitor, não é de hoje.

Palavras formadoras de moral na sociedade ocidental

Foi essa vinculação com a necessidade religiosamente
motivada que tornou a linguagem da interioridade irresistível. O
vínculo entre as ideias dominantes no Ocidente e a sua eficácia é
percebido – uma óbvia correspondência com Max Weber – como
um processo interno à racionalização religiosa ocidental. Desse
modo, as concepções de bem articuladas ideacionalmente são
vinculadas a novas motos 2019 a partir do prêmio
religioso da salvação. Isso explica, a meu ver, o lugar
paradigmático de Santo Agostinho na empresa tayloriana.
Aqui se inaugura toda uma família de fontes morais que
passam a ser formadoras da cultura ocidental como um todo. É que
a passagem para uma condição superior passa a ser marcada pelo
acesso à interioridade. Através da interioridade, somos capazes de
chegar ao superior.

Como veremos, todas as fontes morais da
cultura ocidental pressupõem esse caminho. Para Taylor, Agostinho
foi também o inventor do pré-cogito, na medida em que a certeza
advém da coincidência entre conhecedor e coisa conhecida, quando
se trata de se discutir sobre a minha existência. O ponto de vista da
primeira pessoa pode, assim, se ancorar num primeiro passo
confiável para a busca da verdade.
Um outro aspecto importante parece-me o fato de que, além de
tornar o ponto de vista da primeira pessoa fundamental para nossa
busca da verdade, Agostinho constrói toda uma hierarquia
valorativa com base nesse fato. Passa a existir um abismo
insuperável entre os seres capazes de raciocínio e os que carecem
dessa faculdade. Agora, não só o inerte se diferencia do que vive,
mas, entre os que vivem, passa a existir uma diferença qualitativa
entre os seres que vivem e têm consciência de que vivem e os
simples viventes. Esse aspecto também é fundamental para a
reconstrução da relação entre a eficácia das ideias e a noção de reconhecimento como fonte de autoestima socialmente
compartilhada.

É nesse terreno que temos aqui, além de uma nova
antropologia, uma nova concepção da virtude e uma nova
concepção da dignidade humana. Se o controle racional é uma
questão de a mente dominar adequadamente um mundo
desencantado da matéria, então a noção de superioridade da boa
vida tem que advir do próprio senso de dignidade do agente
enquanto ser racional. Como bem mostra Taylor, Descartes (talvez
precisamente por ser um pensador de época em transição) transpõe
as virtudes da ética aristocrática da glória e da fama das motos Suzuki 2019 clássicas, algo que se conquistava no espaço público, na ágora, nas
campanhas militares, para o interior da mente, engendrando uma
forma qualitativamente nova de produção de nossa autoestima. A
fonte da noção de autoestima e de dignidade não é mais algo para
os outros, mas serve, ao contrário, para manter nosso senso de valor
aos nossos olhos.
A internalização da faculdade da cognição corresponde a uma
internalização da fonte da moralidade como bem percebe Taylor. A
ética de aristocratas baseada em força, firmeza, resolução e controle
é internalizada e aburguesada como fonte moral por excelência para
o ser humano comum. E é a força do autovalor que estimula e leva
o novo sujeito a conquistar seus medos e desejos vulgares em
direção à transformação da realidade à sua volta. Dignidade e
autoestima, temas que Kant aperfeiçoará mais tarde, já têm aqui um
lugar central e é percebido como o motor para o compromisso
continuado com a virtude.

A teoria da critica construtiva pode fazer bem

A outra vantagem concomitante é a possibilidade de
aprendizado pela comparação refletida. Pode-se criticar muita coisa
nas teorias da modernização tradicionais, e certamente a maior
parte das críticas são bem dirigidas e corretas. Mas não considero
errado o pressuposto de que existem sociedades melhores, mais
justas ou humanas do que outras. O erro das teorias tradicionais da
modernização foi ter associado a noção abstrata de melhor e mais
justo ao exemplo concreto da sociedade americana, o que
certamente não é verdade em muitos aspectos importantes da fabricação de novos carros 2019. Mas que
o critério de melhor ou pior existe, e que o mesmo é compartilhado
pela imensa maioria das sociedades modernas, é mera consequência
do ponto de partida teórico desenvolvido aqui. Talvez a forma
como as sociedades modernas lidam com seus desclassificados
sociais seja um bom ponto de partida para esse novo tipo de
sociologia crítica comparada da modernidade, tanto central quanto periférica.

Para que possamos desenvolver uma compreensão alternativa
da modernidade periférica àquela criticada acima – que opõe, de
maneira antagônica, os polos moderno e pré-moderno, partindo de
oposições binárias reciprocamente excludentes que se multiplicam
indefinidamente –, torna-se necessário partir de uma visão
alternativa e crítica da própria modernidade central. Reconstruir
uma concepção alternativa da modernidade periférica envolve, logo
de início, partir de interpretações que enfatizem a ambiguidade
constitucional da experiência ocidental com lançamentos PEUGEOT 2019. Dois autores contribuíram,
decisivamente e de modo sofisticado e instigante, para uma análise
crítica da modernidade ocidental nas últimas décadas: Charles
Taylor e Pierre Bourdieu. A contribuição desses autores não me parece apenas fundamental para uma compreensão adequada da
modernidade central. Como espero poder deixar mais claro a
seguir, eles são indispensáveis, ainda que com modificações
importantes nos respectivos pontos de partida teóricos, para uma análise alternativa da modernidade periférica.

interlocutores privilegiados – e apesar de semelhanças marcantes
no diagnóstico das patologias da modernidade entre os dois autores
–, Taylor certamente não admitiria a possibilidade da separação
entre sistema e mundo da vida efetuada por Habermas. Essas duas
dimensões refletem meramente horizontes de significação distintos
e devem ser analisadas enquanto tais. Desse modo, os imperativos
sistêmicos não se confrontam com as identidades individuais como
algo externo. Ao contrário, eles são componentes dessa mesma
identidade e são produzidos e adquirem eficácia precisamente por
conta disso. Os imperativos sistêmicos são objetivos coletivos que
se tornaram autônomos e o desafio, em vez de naturalizá-los, como faz a perspectiva sistêmica, é precisamente de revificá-los.

Instituições como Estado e mercado, assim como as demais
práticas sociais e culturais, já possuem implícita e
inarticuladamente uma interpretação acerca do que é bom, do que é
valorável perseguir, do valor diferencial dos seres humanos, etc. A
hermenêutica tayloriana tem como alvo principal precisamente
tornar esse pano de fundo implícito articulável e consciente. É isso
que leva Taylor a defender o holismo metodológico.

Problemas sociais na América latina

Como não existe – certamente no Brasil, mas também, em
grande medida, no mundo todo – nem a percepção sociológica,
nem política da realidade simbólica invisível que permite tornar
permanente a pobreza material visível, combatem-se moinhos de
vento construídos a partir da percepção fragmentada da realidade
social: a percepção da violência criminosa tornada espetáculo
televisivo (que esconde a violência cotidiana mais importante e
menos visível); a tendência mundial de tornar a pobreza novamente
questão de polícia e retirá-la da dimensão política; a tendência geral
de culpar a vítima por sua própria exclusão, etc.
Nesse sentido, e essa é uma das vantagens para o Pronatec 2019 cursos gratuitos nada desprezíveis
do tipo de enfoque que estamos defendendo neste texto,
compreender a realidade da exclusão social de grandes segmentos
da população em países como o Brasil ajuda a perceber o mesmo
tipo de problema em países ditos avançados, nos quais a dimensão
do problema social é, comparativamente, menor. Ao se separarem
em categorias analíticas distintas sociedades modernas avançadas e
sociedades pré-modernas periféricas, constroem-se no fundo
distinções racistas, posto que substancializadas e essencializadas.
Não importa se a explicação científica dominante opera essa
divisão como sendo de fundo abertamente racial, como no século
XIX, ou como uma linha divisória cultural, como nos séculos XX e
XXI. O importante aqui é mostrar o caráter falso e artificial desse
tipo de operação político-científica. A produção de exclusão e
marginalidade em sociedades como a brasileira não se distingue com inscrições pronatec 2019,
qualitativamente, do mesmo fenômeno em sociedades ditas
avançadas, como os Estados Unidos e a Alemanha.
Essas classes de desclassificados sociais são construídas por
motivos modernos e semelhantes em qualquer lugar. Afinal, é a
ausência da incorporação dos modernos capitais impessoais, tanto o
capital econômico quanto o capital cultural, que reduz os
indivíduos dessa classe a corpos que são vendidos enquanto corpos,
a baixo preço, para serviços desvalorizados. Esses serviços
desvalorizados são, tipicamente, divididos em serviços sujos e
pesados para os homens reduzidos à energia muscular, e serviços
domésticos e sexuais para as mulheres também reduzidas a corpos
que não incorporaram conhecimento útil nos mercados
competitivos.

É, por sua vez, a não incorporação desses capitais
impessoais que implica uma realidade simbólica existencial e
política precária para aqueles situados abaixo da linha divisória da
dignidade, no sentido tayloriano. Essa condição peculiar implica
várias armadilhas para a análise científica, que não são privilégio
de brasileiros ou de cientistas da periferia. Também em nível
mundial, a realidade dos excluídos é tornada invisível pelos
mesmos “inimigos”: por um lado, a percepção liberal da sociedade
que universaliza as disposições de comportamento da classe média
para todas as classes subalternas, permitindo culpá-las pelo próprio
fracasso, e, por outro lado, a percepção politicamente correta que
assume o discurso necessariamente reativo do excluído sobre si mesmo como sua verdade.